Prosa e Poesia

A casa

Ana Mello


Estou examinando as met√°foras usadas por diversos autores. Tudo come√ßou com a leitura de Jo√£o Gilberto Noll. Ler o escritor j√° √© uma met√°fora, e ele usa muitas que eu gosto o que despertou meu interesse em analisar outros autores. O livro √© M√≠nimos, M√ļltiplos, Comuns. S√£o trezentos e trinta e oito romances m√≠nimos. Tamb√©m gosto muito de micro narrativas.

Metáfora, para quem não lembra, é o emprego de uma palavra em sentido figurado, caracterizada por uma relação de semelhança para estabelecer um novo significado. Assim podemos dizer que Luiza é uma flor, que ela fez uma doce aparição, que sua capacidade foi a chave do problema.
Jo√£o Gilberto Noll escreveu, no conto Sar√ßa Ardente: ¬ďPois, por uma fresta uma vez entrei ali, e tudo l√° dentro era um cheiro que produzia em mim, digamos, umas bolhas no racioc√≠nio ¬Ė id√©ias desidratadas no meio daquela umidade prenha.¬Ē

Costumo usar tropos, falo do chefe quando quero falar dos problemas dif√≠ceis de enfrentar, dos medos, da opress√£o. Deste modo, como muitos outros j√° fizeram, para mim a casa √© o centro do mundo, o ref√ļgio, o √≠ntimo de cada um...
A casa em silêncio.

Todos dormem até que o sol pense em aparecer. A mãe acorda e o cheiro de café impregna o ambiente onde o sono teima em manter o filho na cama. O pai levanta e o ruído navega entre os lençóis, fronhas e travesseiros.
Logo todos comem as frutas e o pão, xícaras quase vazias. O jornal informa a previsão do tempo. Escovam, ouvem, olham. A casa vê no espelho da sala.

Saem, e o silêncio é quebrado pelo canto dos canários. A casa quieta. A tarde é lenta, e o sol entra por outra janela, vai longe, do quarto ao quarto.
As sombras anunciam a volta da família, quando a cozinha transforma a casa em aromas e sons. A água, os pratos, a mesa.

Os temperos que comp√Ķem o jantar.
As conversas animam a casa, com um pouco de todos e um espaço de cada um.
As roupas, as fotos na parede, os livros na estante, os brinquedos no tapete.

A família guarda na casa sua história e é a própria casa.
Por isso a casa √© t√£o importante. Na m√ļsica do Gilberto Gil, met√°fora, que diz: ¬ďUma lata existe para conter algo,/Mas quando o poeta diz lata/Pode estar querendo dizer o incont√≠vel¬Ē

Poderia ser casa em vez de lata. E ele diria:
- Por isso n√£o se meta exigir do poeta /Que determine o conte√ļdo em sua CASA/Na CASA do poeta tudo-nada cabe.
Assim passei um domingo em casa, colhendo met√°foras para uma semana habitual.

 

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